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Ministro inaugura nesta terça-feira novo
elevado no km 592 da BR-040, que levou tempo demais para
ficar pronto
Foram
53 anos e 267 dias e noites de um pesadelo que parecia não
ter fim. Mas, nesta terça-feira, enfim o macabro Viaduto
Vila Rica, mais conhecido como Viaduto das Almas, no km 592
da BR-040, em Itabirito, na Região Central, a 50 quilômetros
de Belo Horizonte, será aposentado. Às 17h, o ministro dos
Transportes, Paulo Sérgio Passos, inaugura o elevado Márcio
Rocha Martins, que substitui a antiga estrutura, erguida em
curva e que tragou pelo menos 200 vidas, segundo estimativa
da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, desde 1º de
fevereiro de 1957, data de sua inauguração.
A saída de cena do Vila Rica é um alívio para os cerca de 15
mil motoristas e passageiros que arriscam a vida diariamente
no trecho. Por outro lado, é exemplo de como o poder público
gasta mal o dinheiro do contribuinte, pois a obra que
salvará muitas vidas durou 12 anos para sair do papel: o
primeiro projeto do empreendimento estava pronto desde 1998,
mas a construção só começou em 2006. Para piorar, a
inauguração foi adiada por seis vezes. O resultado foi o
aumento do custo total da obra, que saltou de R$ 40 milhões
para R$ 60,6 milhões.
A morosidade do governo federal em desativar o velho Vila
Rica custou a vida de muitas pessoas. A maioria das
tragédias foi causada pelo design do elevado, erguido em
curva, a 30 metros do solo e com 260 metros de extensão por
9 metros de largura. O novo viaduto tem dimensões seguras:
21 metros de largura por 460 metros de comprimento. Sua
principal vantagem é que foi costruído em linha reta. Além
disso, tem área para escape e a mureta de proteção é bem
maior que a do antigo.
“Pensei que a obra jamais seria inaugurada. Foram tantas
promessas… Mas, antes tarde do que nunca”, disse a
aposentada Maria de Lourdes, de 51 anos, filha do fazendeiro
José Alves, primeira vítima do Viaduto das Almas, em 20 de
julho de 1958. O agricultor, que morava em Entre Rios de
Minas, na Região Central, dirigia uma caminhonete que foi
empurrada para fora da ponte por um caminhão do Rio de
Janeiro, e seu motoristas nem sequer parou para socorrer o
mineiro.
José morreu durante uma viagem a BH, onde visitaria o pai
internado em um hospital. Maria de Lourdes não o conheceu,
pois sua mãe, também Maria, mas da Paixão, estava grávida
quando perdeu o marido. O desastre ocorreu no dia em que o
casal completaria oito anos de feliz união. Naquela manhã, a
hoje viúva acordou bem cedo e informou ao companheiro que
estava grávida. O fazendeiro, feliz com a notícia, deu um
beijo na mulher e disse: “Será menina, se chamará Maria e
terá olhos azuis”. Ele acertou, mas não teve chance de
conhecer a filha.
O novo viaduto tem as pistas largas e há mais proteção para
os motoristas na passagem que será aberta à tarde
Maria, a filha, recorda que o Viaduto das Almas foi entregue
à população em 1957 pelo então presidente Juscelino
Kubistchek (1902/1976) como parte da cerimônia de
inauguração da BR-3, hoje 040. A rodovia era um marco para
os mineiros, pois, além de ser a primeira estrada totalmente
pavimentada do estado, ligava Belo Horizonte à capital da
República, o Rio de Janeiro – Brasília só seria inaugurada
em 1960. Por ironia, a obra foi considerada por muitos a
mais charmosa da importante rodovia.
Mas, o bonito viaduto se transformou numa das maiores
armadilhas da malha nacional. Em setembro de 1967, um ônibus
da Cometa, que saíra do Rio, não conseguiu cruzá-lo: 14
pessoas morreram, entre elas a atriz Zelinha, da extinta TV
Itacolomi. Em outubro de 1969, o maior desastre: outro
ônibus da Cometa, que também havia deixado a Cidade
Maravilhosa, derrubou a precária mureta de proteção, deu uma
cambalhota no ar e caiu com as rodas para cima, matando o
motorista e 29 passageiros. Em 1994, mais um ônibus
despencou da ponte: 13 vidas perdidas.
Novela
A União, finalmente, aposentará o Vila Rica, se tudo der
certo. Por seis vezes, a inauguração foi adiada. O
projeto-executivo do complexo viário que substitui o velho
viaduto – ponte e variante – foi elaborado em 1998, mas a
obra só começou em 2006, quando o Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes (Dnit) estimou a primeira data
para entregá-lo à população: agosto de 2008. Ainda em 2006,
o Dnit reviu a data para novembro de 2008, culpando a chuva
pelo atraso.
Poucos meses depois, remarcou a inauguração para abril de
2009. Mas, uma erosão no km 593 da 040 obrigou o Dnit a
alterar o traçado da variante, mudando a data de conclusão
da obra para início de 2010. O prazo não foi cumprido e
outra data foi divulgada: fim do primeiro semestre de 2010.
Em setembro passado, o Dnit liberou o trânsito na pista que
segue para o Rio de Janeiro. A faixa em direção a BH não
pôde ser aberta em razão do desmoronamento de terra numa
montanha cortada pela variante. O terreno, instável,
apresentava risco de erosão, o que obrigou o órgão a gastar
R$ 13,6 milhões para que parte da montanha fosse jogada ao
chão.
Futuro incerto
O
Dnit informou que repassará o antigo viaduto aos cuidados da
União, que ainda não sabe o que fará com ele. A única
certeza é que não será jogado ao chão, pois, abaixo dele, há
o Riacho Monjolos, apelidado por nativos de Córrego das
Almas, por causa de os moradores mais antigos acreditarem
que a neblina que forma sobre o filete de água atraía almas
penadas.
O apelido do córrego inspirou o governo federal, em 1957, a
batizar o elevado como Viaduto das Almas. A ponte só ganhou
o nome de Vila Rica em 1974. Paulo Henrique Lobato - Estado
de Minas |
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