Professor por amor: “Entrei e saí vendo os mesmos problemas” afirma professora itaunense

Foto: INEP/A instabilidade no emprego é uma realidade e assim como a carga horária é exaustiva, a infraestrutura é precária ou deixa a desejar.

Gabriela Santos*

Um professor ou uma professora podem ser uma janela para o mundo que se vê, ou além, para o mundo que se deseja construir. Ainda na infância, intermediados por esses profissionais, experimentamos realidades que não conhecíamos e conhecimentos até então inéditos.

Nossos especialistas, infelizmente, matam leões diariamente. A profissão é cada vez mais desvalorizada; a remuneração dos professores é muito abaixo do básico e consequentemente, impede a reciclagem de experiências. Por exemplo, comprar livros ou fazer um curso se torna inviável. A instabilidade no emprego é uma realidade e assim como a carga horária é exaustiva, a infraestrutura é precária ou deixa a desejar.

O Jornalismo Santana FM preparou uma série de reportagens abordando o assunto a fim de mostrar os diversos desafios da profissão. Em entrevista, Mirna Mara Coelho, professora de história já aposentada, afirma que enxerga essa desvalorização com muita tristeza. Ela trabalhou em várias escolas de Itaúna e seu tempo maior foi na Escola Estadual Victor Gonçalves de Souza.

“Não sei nem quando foi o último reajuste, são sempre parcelados e sei que tem dois atrasados. O Governo de Minas já soltou uma nota falando que não tem caixa para pagar. Sempre foi assim. Os atrasos nos pagamentos têm gerado muita insegurança em nossa classe, pois não sabemos o dia em que receberemos e nem se receberemos. Para os professores que são ‘arrimo de família’ a coisa fica ainda mais complicada, porque as contas de água, luz, aluguel, chegam com datas marcadas e como vamos pagá-las? Isso gera desconforto e revolta. Os compromissos assumidos, empréstimos, prestações, financiamentos, cartão de crédito… Todos atrasados. Isso tem repercussão no trabalho porque os servidores estão descontentes, desmotivados, revoltados. Tem repercussão no comércio e na economia, ninguém compra nada e não assumem nenhum compromisso” desabafa a professora.

Mirna ainda afirma que toda essa instabilidade gera um déficit na educação, já que o Governo não investiu nos profissionais da educação. Os melhores alunos não querem ser professores, então muitos se tornam professores por falta de opção, o que gera um ciclo vicioso e deficitário.

“Quem quer ser professor da rede pública no Brasil não pode pensar em remuneração. O que recebemos não paga o investimento na formação profissional. Pós-graduação, mestrado, doutorado não são recompensados. Pagam apenas 10% do salário base, que já é baixo. Ou seja, não estimulam e os que investem vão para a iniciativa privada, com raras exceções. Agora saiu o novo ensino médio, que, mais uma vez, vem dos gabinetes. Nenhum deles frequentam a escola, nenhum vem ver o dia a dia da sala de aula, então não adianta. Infelizmente entrei vendo estes problemas e saí com os mesmos problemas” explica Mirna.

A rotina de sacrifícios e excesso de trabalho, no entanto, é o que trouxe realização para a professora. Ela garante que nunca foi uma profissional frustrada porque nunca visou o dinheiro.

“Apesar de eu ter falado isso tudo, graças a Deus, é o que ainda salva nesse país, é que ainda tem muitos professores que trabalham com muita dedicação e porque gostam. Eu fui professora por 30 anos, não me arrependo hora alguma e fui muito feliz na minha profissão. É uma profissão muito boa. Você vê o aluno crescer, desenvolver a crítica, a fala, o conhecimento… não tem nada que pague. A gratificação nossa é essa. É isso que faz a gente ser feliz: ver o fruto” afirma.

Ao longo dessa semana, o Jornalismo Santana FM abordará outros temas dessa profissão tão importante para a sociedade, já que não existiriam outras profissões se não fossem os professores.

*Estagiária sob supervisão de Paloma Guimarães.