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Rádio Santana FM

Itaúna, 18 de junho de 2021

Lugar comum tratar o ser humano como o supra sumo de toda a criação.

Seríamos, dentre os animais, os mais fortes, inteligentes e capacitados e dada estas especiais características, vocação natural do homem o domínio sobre todas as demais espécies e seu império absoluto sobre o planeta.

Porém, basta-nos uma existência um pouco mais alongada em anos e uma atilada observância sobre as performances e nuances do caráter humano para apurarmos com nítida clareza suas deformações e torpezas.

Partindo dessa premissa, já não nos surpreendemos mais no decorrer do cotidiano, ao nos depararmos com ações e omissões que deixam transparecer de forma tão incisiva e eloquente, as personalidades enfermiças e onde o humano do ser, ofusca-se de tal maneira , que se torna deveras oficioso reconhecer-lhe como tal.

A Ideologia Católica elencou-nos em número de sete, os mais imperiosos desvios de conduta, os quais designou como “pecados capitais”; cuja listagem seria ainda bem anterior ao próprio advento do cristianismo; ou seja, a cultura cristã assimilou uma pontuação de vícios que – obviamente- foram detectados por aqueles que se dedicaram à analise e estudo do homem e seus comportamentos, em eras onde o “amor ao próximo” não se antevia como um preceito divino e sim apenas e tão somente como uma condição natural à própria sobrevivência da sociedade.

Ao deitarmos o olhar sobre os chamados Pecados Capitais, uma grande característica os permeia e salta-nos aos olhos: o desequilíbrio.

O desequilíbrio põe em risco a própria existência humana.

Nos dias que correm, desta nossa complexa realidade pós-moderna e aonde acentuou-se uma profunda preocupação com o planeta Terra – o lar comum a todos os seres humanos ( independente de raças, credos e condições sócio-políticas e econômicas); percebe-se de modo muito claro e certo, o que o desequilíbrio é capaz de proporcionar e o agigantamento de suas nefastas consequências.

Se o desequilíbrio atinge o macrocosmo, pode-se deduzir que o mesmo tem origem no interior do homem, ou seja, no microcosmo.

A Humanidade está em desequilíbrio. O homem encontra-se em desequilíbrio.

O equilíbrio mantém-nos de pé; nos faz caminhar, avançar, progredir; imbuídos do espírito de harmonia, compreensão, paz, fraternidade, solidariedade, beleza, altivez…

O desequilíbrio produz o contrário. Os passos são trôpegos, há uma sensação de insegurança, incerteza, que gera o medo, armam-se atitudes de defesa, fecham-se corações, mentes e mãos; afloram atitudes de repulsa ao outro.

Desequilíbrio gera a fragilidade. E é na fragilidade que o homem se desumaniza. Desce do seu patamar de dignidade de ser humano e passa a um estado, abaixo dos animais; porque os sentimentos que se lhe brotam, os animais não os possuem.

Diante deste triste cenário, descortina-se a famosa lista dos pecados capitais; vícios que proporcionam o desequilíbrio do ser.

Gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e vaidade.

Detendo-nos rapidamente sobre cada um, podemos delinear a gula, o ato de exceder-se à mesa no comer e no beber ; um desequilíbrio ligado ao egoísmo…o tortuoso instinto de se querer sempre mais e mais; o que gera doenças e a trás a morte como consequência.

A avareza mostra-se como um apego excessivo aos bens matérias, ao dinheiro. O avarento padece de grande ganância – uma vontade descontrolada de possuir- um doente do espírito que prefere estar no convívio de seus bens, do que na companhia das outras pessoas ou ainda, nega-se ou dispensa o convívio com Deus e desta forma torna-se um idólatra daquilo que possui.

A luxúria, muita das vezes entendida erroneamente apenas no sentido da sexualidade pervertida ou desequilibrada, revela-se como uma grande fraqueza do ser; ao deixar dominar-se pelas inúmeras paixões que se nos oferece o mundo e desta forma tortuosa viver apenas pelo gozo dos prazeres materiais e corporais. Obviamente, as consequências para o ser humano são desastrosas e conduzem igualmente à morte.

A ira consiste em cólera, no ódio compulsivo. Não se confunde com aquele sentimento de raiva momentânea que nos assola ao vivenciarmos determinadas circunstâncias. A ira é um sentimento negativo profundo e arraigado ao ser que o leva a concentrar suas energias na destruição do outro ser. Transmuta-se em uma ideia fixa onde se buscará diuturnamente a erradicação do outro e de tal forma, que se anula a própria existência, esvaziando-a na busca tresloucada pela infelicidade do outro. O resultado obtido será sempre a própria infelicidade.

A preguiça. Esta não se trata de nosso estado de certa letargia nas tardes domingueiras…A preguiça é algo similar a uma pequena erva – que cresce como uma trepadeira muro acima- e que segue instalando-se silenciosamente no espírito de nossa gente. Denota-se em uma falta de capricho, de empenho, de iniciativa; em negligência, desleixo, morosidade, lentidão e moleza…Pode ser de fundo patológico: uma doença, uma sezão, um paludismo; neste caso, precisa-se do diagnóstico e alguns medicamentos alopáticos.

José Bento de Monteiro Lobato eternizou a preguiça de nosso povo em seu personagem “Jeca Tatu”; cujas historietas as lia nos livretos que acompanhavam o famoso “Biotônico Fontoura”.

Porém, no tempo presente, a preguiça – em determinadas circunstâncias – é avalizada pelas benesses paternalistas dos Governos, que em suas negociatas eleitoreiras, preferem o “dar o peixe” ( atitude muito necessária por vezes), entretanto, não interessa-lhes prover a solucionática necessária; pois perderiam assim os mecanismos de obtenção de votos…lamentável.

A vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” nos proclama o Livro do Eclesiastes. O grande Santo Agostinho assevera: “Vaidade não é grandeza, é inchaço. E o que está inchado, nunca é sadio”. A vaidade vem acoplada à soberba, à arrogância…

Em nossa terra barranqueira, grassa a vaidade. A ponto de impedir-nos o progresso. A ponto de dotar de mesquinharia
s muitas de nossas relações sociais e políticas. A ponto de impedir o reconhecimento das boas ações que não partiram de nós mesmos. A ponto de criticar conquistas tão aguardadas, que porém, não podemos reconhecer, caso contrário, será preciso aceitar o mérito do outro e isto – no pensamento pobre e deturpado- viria a tolher o nosso próprio brilho.

Por fim, temos a inveja. A inveja mostra-se como um sentimento triste, sombrio e patético, porque o invejoso sempre ignora as próprias conquistas e se mira tão somente sobre o outro. Tudo aquilo que o outro possui ou as vitórias que obtém, pensa que está errado; que aquela pessoa – em seu obscuro entendimento- não seria merecedor de nada daquilo.

Percebe-se que há um íntimo relacionamento de um vício com o outro. Nunca andam sozinhos, o mal sempre atrairá ainda maiores desequilíbrios.

No receituário do equilíbrio, prescreve-se as medicamentosas: para a gula, a temperança. Para a avareza, a generosidade. Para a luxúria, a castidade. Para a ira, a mansidão. Para a preguiça, a diligência. Para a vaidade, a humildade. E para a inveja, a caridade; ou seja, o tão desejado amor ao próximo!

Resta-nos, como bons barranqueiros de Sant’ana do rio São João, tomarmos doses homeopáticas diárias – em jejum- do supracitado receituário; a nós prescrito pelo Médico dos Médicos!

“VANITAS VANITATUM ET OMNIA VANITAS”

*da Academia Itaunense de Letras