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Rádio Santana FM

Itaúna, 12 de dezembro de 2019

Fonte: Jornal O Tempo

 

As recomendações trazidas pelo relatório da ONU podem não ser aproveitadas a tempo de garantir um lugar de protagonismo internacional para o país que tem em abundância o ativo valorizado pelo novo diagnóstico do clima: solo.

 

Até então, a ciência climática demandava esforço principal do setor energético, em transição de combustíveis fósseis para renováveis.

De hoje em diante, gigantes em terra como o Brasil passam a ser mais cobrados pelo desafio de equilibrar redução de emissões de gases-estufa e de desmatamento, produção de alimentos e de bioenergia.

 

As diferentes vocações podem ser combinadas sem causar competição por terra em um país com dimensões continentais como o Brasil. Todas elas cumprem papeis estratégicos para mitigar efeitos e ajudar na adaptação ao novo clima, garantindo, por exemplo, que não falte comida e nutrição para um mundo de clima inconstante e cada vez menos previsível.

 

Por outro lado, a potência dessas oportunidades diminui à medida que o quadro climático se agrava e os possíveis protagonistas de uma nova realidade se tornam, de antemão, vítimas.

 

Isso porque, ironicamente, grandes ativos no enfrentamento do clima ficam cada vez mais vulneráveis com efeitos das mudanças climáticas e com a degradação dos solos.

 

A escolha entre as duas direções depende de um despertar urgente por parte do setor mais pragmático do governo, ligado ao agronegócio.

 

Depois de garantir, no início do ano, que o Brasil permaneça (ao menos formalmente) no Acordo de Paris, os ruralistas caíram em profundo silêncio nos últimos meses e preferiram não se manifestar sobre a crise do governo em relação à revelação dos dados de desmatamento – ainda que a falta de transparência coloque em risco o acordo comercial do Mercosul com a União Europeia.

 

Segundo cálculos trazidos no relatório da ONU, cada dólar investido em gestão sustentável dos solos gera seis dólares de retorno em serviços ecossistêmicos. Isso significa, por exemplo, maior regularidade de chuvas -recurso caro à atividade agrícola.

 

Se, por um lado, o relatório dá recados claros de como o país poderia direcionar suas políticas públicas, também absorve influência da atuação brasileira, que garantiu atenção aos biocombustíveis, enquanto ajudou a evitar uma possível recomendação à diminuição da dieta carnívora (cuja cadeia produtiva tem liderança brasileira e é importante emissora de gases-estufa).

 

A resiliência das florestas e da agricultura neste novo cenário climático também dependerá fatalmente de políticas públicas de adaptação ao clima.

 

Governos locais e também o federal falham em reconhecer a vulnerabilidade do país, à revelia do agravamento evidente de secas e enchentes nos últimos anos, que causam perdas de produção no campo e mortes humanas nas cidades.

 

Tratando-se de clima, também importa para o solo brasileiro o que os outros países fazem para reduzir suas emissões – ponto em que, até aqui, a diplomacia brasileira veio cobrando de países desenvolvidos.

 

Com a crise climática já instalada e dando sinais evidentes pelo mundo através de eventos extremos, o Brasil não terá muito tempo para reunir o que tem de melhor em termos de conhecimento científico, diplomacia e práticas de manejo florestal e agrícola.

Interesse nacionais e globais se mobilizam na direção de o Brasil liderar os esforços para evitar uma tragédia climática – se o atual governo não escolher a mão contrária.