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Rádio Santana FM

Itaúna, 27 de novembro de 2020

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A Coreia do Sul tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo, e funcionários muitas vezes relatam estarem estressados. Para reverter essa tendência, algumas empresas estão apostando em uma nova forma de fazer seus empregados aproveitarem a vida: simulando seus funerais.

Em um salão de um bloco de escritórios modernos em Seul, funcionários de uma empresa de recrutamento estão encenando seus próprios funerais. Vestidos com roupões brancos, sentam-se em mesas e escrevem suas cartas de despedida para parentes. O som de choros e de lenços de papel sendo puxados de caixas toma conta da sala.

E, em seguida, o clímax: eles sobem e ficam sobre os caixões de madeira, dispostos ao lado deles. Eles param, entram e deitam-se. Cada um abraça uma foto de si mesmo, envolta numa fita preta.

À medida que olham para cima, os caixões são fechados por um homem vestido de preto com um grande chapéu. Ele representa o Anjo da Morte. Fechados na escuridão, os funcionários refletem sobre o sentido da vida.

O ritual macabro é um exercício de união criado para ensiná-los a valorizar a vida. Antes de entrarem no caixão, eles assistem a vídeos de pessoas que enfrentam adversidades – um paciente com câncer aproveitando ao máximo seus últimos dias ou alguém que nasceu sem algum membro aprendendo a nadar.

Tudo isso foi planejado para ajudá-los a aceitar seus próprios problemas, que devem ser vistos como parte da vida, diz Jeong Yong-mun, que dirige o Centro de Cura Hyowon – seu trabalho anterior foi numa funerária.

Nesta sessão, os participantes são funcionários da empresa de recursos humanos Staffs, que os mandou para lá.

“Nossa empresa sempre incentivou os funcionários a mudar suas velhas maneiras de pensar, mas era difícil conseguir qualquer diferença real”, diz seu presidente, Park Chun-woong.

“Acho que ficar dentro de um caixão pode ser uma experiência tão chocante que pode levá-los a repensar a vida”.

É difícil saber o que os empregados pensam – a Coreia do Sul é uma sociedade muito paternalista e é improvável que eles critiquem a política da empresa. Mas a experiência parece ter tido algum impacto.

“Depois da experiência do caixão, percebi que deveria tentar viver um novo estilo de vida”, disse Cho Yong-tae, que acabou de concluir a experiência. “Percebi que fiz um monte de erros. Espero ser mais apaixonado pelo meu trabalho e passar mais tempo com minha família”.

Como presidente da empresa, Park Chun-woong acredita que a responsabilidade do empregador vai além do escritório. Ele também insiste que sua equipe se envolva em outro ritual todas as manhãs antes de começar a trabalhar – eles fazem exercícios de alongamento que culmina em uma onda de gargalhadas altas e forçadas. É uma cena estranha de se ver.

“No começo, rir junto parecia muito estranho e eu me perguntava qual o benefício isso poderia ter”, disse uma mulher. “Mas uma vez que você começa a rir, você vê o rosto de seus colegas e acaba rindo junto”.

“Eu realmente acho que tem uma influência positiva. Há tão pouco do que rir num ambiente de escritório normal, acho que este tipo de riso ajuda”.

Certamente, rir é preciso no ambiente de trabalho sul-coreano. O país tem a maior taxa de suicídio no mundo industrializado. Há uma queixa constante de “presenteísmo” – ter que chegar ao escritório antes que o chefe e ficar até ele ir embora.

A Associação Neuropsiquiátrica Coreana revelou que um quarto dos entrevistados em uma pesquisa sofria de altos níveis de estresse – e a causa mais citada eram problemas no trabalho.

No ano passado, a prefeitura tentou alterar a cultura de trabalho ao instituir uma sesta, permitindo que seus funcionários tirassem um cochilo por uma hora durante o dia – mas havia um porém: eles deveriam chegar uma hora antes ou ir embora uma depois para compensar a soneca.

A ideia não pegou em outros lugares do país. A competição começa cedo e é difícil para adultos desligarem o impulso competitivo que desenvolveram como crianças.