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Rádio Santana FM

Itaúna, 11 de dezembro de 2019

Texto: Geraldo Fonte Boa

Em 15 de agosto se celebra, em Itaúna, a tradicional festa em honra à Nossa Senhora do Rosário. Muita fé marca a festa que acontece há mais de 200 anos. A devoção a Nossa Senhora do Rosário é passada de geração em geração e é motivo de orgulho para as Guardas que abrilhantam a festa com seus cantos, danças, toques e cores.Durante todo o dia de ontem fiéis de todas as partes da região vieram ao Morro do Rosário para participarem deste momento de alegria.

14 de agosto

As 19h, Santa Missa presidida pelo Padre Marcelo Geraldo de Oliveira. Após a celebração haverá o levantamento das bandeiras.

No dia 15 de agosto:  grande festa de Nossa Senhora do Rosário

As 07h, haverá o café comunitário na Casa da Rainha de Santa Efigênia, Dona Sãozinha, no Bairro Santo Antônio e também no Bairro das Graças, na cada da Dona Maria Ana, no bairro das Graças.

As 09h Santa Missa presidida pelo Padre Everaldo Quintino Ferreira

No final da Celebração, será realizada a procissão com andar de nossa senhora do rosário contornando a pracinha que abriga a igreja do rosário e a sede das Sete Guardas.

9h – Cortejo das guardas com os andores dos santos patronos do reinado, saindo da casa da rainha de Santa Efigênia, Conceição Basílio (Dona Sãozinha). Após a procissão pagamento de promessas.

18- Concentração das Guardas em frente ao altar para a celebração da santa missa com o Padre Amarildo José de Melo. Após a Missa haverá pagamento de promessas

16 de agosto

A partir das 19h, acontece o pagamento de promessas pelas guardas de reinado pelas irmandades do rosário e sete guardas

17 de agosto

19h – Concentração das guardas em frente ao altar para celebração da Santa Missa de encerramento da festa, presidida pelo Padre Everaldo Quirino de Almeida

 

Foto Itaúna em Decadas

Os primeiros registros sobre a tradição da Festa de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna datam de 1853,  na ocasião das trocas da Matriz de Itaúna para uma antiga capela dedicada à Nossa Senhora do Rosário, situada na atual praça da Matriz. A existência desta capelinha dedicada à Nossa Senhora do Rosário nos é apontada por João Dornas Filho, na página 22 do livro “Itaúna – contribuição para a história do município”.

No entanto, é provável que este festejo popular seja anterior a esta data, visto a existência de uma capela dedicada à Virgem do Rosário, sendo tradição em Minas Gerais a existência de confrarias e irmandades da população de origem africana. Ainda é João Dornas que afirma que “desde 1856 até 1930, realizavam-se nella os festejos do Reinado da Senhora do Rosário” (p.16).

A Festa de Nossa Senhora do Rosário tem sua existência confirmada já no ano de 1856, mas podendo ser anterior a esta data pela existência da Capela a ela dedicada e que deu seu lugar à Matriz de Sant’Ana. E após 1930 a Festa do Rosário passa a ser celebrada na Capela de Nossa Senhora do Rosário no alto do morro (atual capela)

Em Itaúna temos 13 Guardas ou Ternos, sendo 04 Guardas de Moçambique; 06 Guardas de Congo; 01 Guarda de Catopê; 01 Guarda de Vilão e 01 guarda de Candombe. A guarda de Candombe, no entanto, não se trata da Guarda Tradicional, ou Guarda Mística, da tradição do Congado. Trata-se de uma guarda feminina criada na década de 1950, como solução de problemas internos sobre o trato com mulheres dentro do festejo de Nossa Senhora do Rosário. A criação desta Guarda, está registrada através do texto produzido a partir de diálogos com as participantes mais velhas desta guarda. Poderíamos classifica-la como Guarda de Congo com características específicas, por se tratar de uma guarda de mulheres.

No entanto, o ritmo de seus tambores lembram o ritmo dos tambores do Candombe original, e, portanto, mesmo não sendo um Candombe constituído conforme a tradição do Congado, esta Guarda é preservada como Guarda de Candombe, e, pela tradição da festa na cidade, torna-se importante para a história local e para a história do próprio reinado de Itaúna.

Para facilitar a compreensão das especificidades de cada uma das Guardas descrevemos as características gerais de cada uma das modalidades presentes na festa do Congado, mesmo daqueles Ternos não existentes em Itaúna.

Candombe

O Candombe é uma guarda fechada aos integrantes dos outros Ternos. Por isso ele é cercado de misticismo, crenças e segredos. É considerado o ancestral mítico do congado e por isso é tido como o pai de todo o Congado e de todas as demais guardas. Nesse sentido o Candombe é o responsável em preservar as tradições mágicas dos iorubas, por isso seu ritual é restrito e fechado ao não iniciados, mesmo que estes sejam membros dos Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Geralmente o membro do Candombe veste-se de branco, sem cobertura, descalço.

Utilizam uma blusa solta e de gola aberta em ângulo reto. A calça geralmente é do tipo “pega-frango”, isto é, vai até a altura da canela e trazem amarrada na cintura uma faixa estreita com suas pontas caídas; trazem também no pescoço uma toalha branca e um rosário feito com Contas de Capiá ou “Lágrimas de Nossa Senhora”. Lembramos, no entanto, que a Guarda de Candombe de Itaúna, composta só por mulheres, tem sua história própria. Linda e rica. Mas é uma história específica que merece ser conhecida, valorizada e respeitada. A guarda de Candombe de Itaúna, no entanto, não se refere ao Candombe pé de coroa como descrito acima.

Moçambique

Conta uma lenda antiga que Nossa Senhora estava no meio do mar vieram os homens brancos, cantaram e dançaram pedindo para que Nossa Senhora saísse do meio do mar. Mas Nossa Senhora não saia. Vieram então os congos, os catupê, o vilão, os caboclos e até mesmo a marujada. E todos cantaram e dançaram para Nossa Senhora pedindo para ela sair do meio do mar. Mas Nossa Senhora não atendeu nenhum desses pedidos. Então veio o Moçambique cantou e dançou, fez duas filas em cortejo e então Nossa Senhora saiu do meio do mar e veio ficar na Capela dos Moçambiqueiros para ser adorada. É por isso que o Moçambique é a guarda mais importante e o único terno que é encarregado de escoltar reis e rainhas durante o reinado de Nossa Senhora. Cabe ao Moçambique a missão de buscar os Reis da Coroa Grande no dia da festa. Os Moçambiques trazem em suas pernas as gungas (latas metálicas com pedrinhas) que fazem as vezes de chocalhos e ajudam a marcar os passos.

Congo

O Congo é uma das guardas mais antigas das Confrarias ou Irmandades, e, talvez, por isso é uma guarda que dá nome a toda a festa. Geralmente ela vai à frente nos cortejos, como se abrisse caminho para que os demais ternos possam passar. Seus membros se ornam com um rosário que vai cruzando o corpo do congadeiro. À cintura, sobre a calça vai um saiote, com fitas coloridas. Além disso a Guarda de Congo tem a função de proteger o povo coroado, ou guardar a coroa, e por isso conduzem uma espada a serviço da proteção do cortejo real.

Catopê ou Catopé

“Catopé está pulando Está pulando a toa porque o Moçambique é quem leva a coroa” A guarda de Catopé é a guarda que substitui a guarda de Moçambique na condução dos Reis e Rainhas do Congo. O Catopé de Itaúna tem como padroeira Nossa Senhora Aparecida, sendo responsável pela condução da bandeira de seu padroeiro. O Catopé tem um ritmo acelerado e utilizam, além das caixas e reco-recos, o violão e a sanfona. É uma das guardas mais festivas da festa do reinado por ter um ritmo mais alegre e vibrante e ainda utilizar roupas mais coloridas.

Vilão

Vilão é a guarda de abre caminho para a passagem do cortejo. Geralmente seus componentes trazem em suas mãos varas enfeitadas com fitas que são utilizadas para marcar o ritmo e também para fazer coreografias. Por este motivo são chamados também de bate-vara, isso porque em alguns lugares fazem suas danças batendo suas varas umas contra as outras. O Vilão da Vila Popular tem como santo padroeiro São Jorge e utilizam em suas vestes pelo menos uma das cores de seu padroeiro, dando preferência para o tom de vermelho, por ser cor forte e alegre.

Cavaleiros de São Jorge

Esta é uma guarda decorativa, pois sua função é acompanhar o Terno de Moçambique ou do Catopé na condução dos reis e rainhas, ou seja, no cortejo real. Seus membros utilizam um capacete de centurião romano, como São Jorge, trazem em uma das mãos um grande lança e sobre os ombros descem uma grande capa. Sobre a cintura vai o rosário de Nossa Senhora do Rosário. É uma guarda mais séria e se comportam com maior seriedade o que se contrasta com a alegria e irreverência do Vilão. Em Itaúna nunca houve registro da presença de uma Guarda dos Cavaleiros de São Jorge.

Marujos

Os Marujos ou a Marujada, geralmente é um terno (guarda) vestidos como marinheiros e tem a função de rememorar a longa e dolorosa travessia marítima dos Africanos para o Brasil. Segundo a tradição eles utilizam instrumentos de percussão comuns à festa do congado, isto é, caixas, mas acrescentam também o uso da viola caipira dentre seus instrumentos, trazem sobre a roupa de marinheiros, na altura da cintura, o rosário de Nossa Senhora. Em Itaúna não existe esta modalidade de guarda, e se havia no passado, se perdeu a tradição.

Caboclinhos

O caboclinho é uma guarda representativa dos índios brasileiros que aparecem associados à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário Brasil afora. A designação do Caboclo ou caboclinho são as mais comuns, no entanto ainda pode aparecer com as designações de tapuio, penacho, botocudo, caiapó ou ainda tupiniquim. Dentro dos festejos do reinado os Caboclinhos representam a fantasia, a arte e a exibição, isto é, o lúdico. Nas regiões onde existem os caboclinhos eles encerram os festejos com o tradicional pau-de-fita. Em Itaúna, havia, pela tradição e por registros fotográficos uma guarda de Caboclinho, mas que não sobrevive em nossos dias.