NO AR AGORA

Rádio Santana FM

Itaúna, 12 de agosto de 2020

 

Foto Reprodução Internet

Prof. Luiz Mascarenhas*

“E a Mestra?… Está no Céu.
Tem nas mãos um grande livro de ouro

e ensina a soletrar aos anjos.”

( Cora Coralina em “A escola da Mestra Silvina)

 

No último dia 26, Itaúna celebrou sua padroeira: a Senhora Sant’Ana. E encontra-se em nossa Igreja Matriz, a veneranda imagem de Sant’Ana Mestra – sentada em sua cadeira a ensinar as escrituras para sua filhinha Maria Santíssima. Sant’Ana evoca portanto a imagem da professora.

 

Em nossa Itaúna, a Educação sempre foi uma das grandes vocações; até simbolizada em nosso brasão municipal, por livros e penas de escrever. Nestas linhas, desejo homenagear a todas as professoras e professores- meus colegas de profissão – agora desdobrando-se arduamente nestes tempos de pandemia, nesta Cidade Educativa, na memória da Professora Graciana Coura de Miranda: uma figura exponencial da Educação em nosso município.

Dona Graciana foi alvo de uma homenagem muito sincera no ano de 2018 e este escrevinhador de coisas dela foi testemunha ocular e colaborador. A homenagem foi a publicação de sua biografia, a qual tive a honra e alegria de prefaciar, a convite de seu filho, José Silvério Vasconcelos Miranda. Conheci o José Silvério, o Urtigão, já idoso e um tanto adoentado, com quem travei  uma curta, porém muito profunda amizade. Dessas que parecem que valeram por uma vida toda. Uma figura humana admirável e que muito me enriqueceu cultural e espiritualmente. Os dados biográficos de dona Graciana aqui registrados me foram passados pelo mesmo; além de muitas e saborosas histórias e “causos” sobre nossa Itaúna.

Foto Itaúna em Décadas

GRACIANA COURA DE MIRANDA (31 de março de 1914 – 06 de dezembro de 1997). Ou Gracinha; que de tão pequenina, um dos filhos dizia afetuosamente que lembrava um cachorrinho deitado…A filha do Nico Miranda e da Sinhá Coura teve uma trajetória de vida agitada, temperada e grandemente louvável.  Com sua Família, deitou peleja pela vida por diversas cidades destas Minas Gerais (Rio Casca, São Domingos do Prata, Viçosa, Rio Piracicaba, Belo Horizonte, Alvinópolis, Coimbra e finalmente vieram dar com os costados nestas barrancas de Sant’anna do Rio São João).

Dona Graciana graduou-se como normalista em fins de 1931. Em 1938, contraiu núpcias com José Mendes Vasconcelos e em 43 – aos vinte e nove anos- assumia a sua primeira direção escolar, em Rio Piracicaba. Contudo, desta feita, invejas e politicagens logo a apearam do cargo. E os insondáveis meandros da Providência logo se fizeram ouvir; porque em 45, com a família recém- aportada na capital mineira, ei-la diante do célebre Instituto de Educação – “Educar-se para educar” – aonde cursaria  Administração Escolar, formando-se em 48. E lá estava a nossa Gracinha bebendo dos grandes luminares da Educação Nacional: Abgar Renault, Amélia Monteiro de Castro, Alda Lodi, Lúcia Casassanta, Mário Casassanta, Aires da Matta Machado, Mle. Jeanne Milde ( belga de origem e que  deixou-nos belíssimos baixos-relevos na entrada principal do edifício do Instituto de Educação de Minas Gerais) e ainda Helena Antipoff  ( fundadora do Instituto Pestalozzi ).  Como ela mesma afirmaria, ao referir-se ao Instituto de Educação: “meu céu aberto” e não seria para menos.

 

“Por aqui boa gente aportou…”Fevereiro de 1951. Itaúna. Dona Graciana Coura de Miranda chega às bucólicas barrancas de Sant’Anna do São João Acima, à época, humana e pitoresca, para assumir a direção do Grupo Escolar “Souza Moreira” em Santanense.

 

A biografia de dona Graciana é reveladora de muitas histórias. Uma gama complexa, nutritiva e rica; aonde se descortina o cotidiano da então modorrenta Itaúna,  com seus diversos personagens como os padres  Zé Netto e Waldemar;   prefeitos Vitor Gonçalves, Milton Penido e Célio Calambau; o Zé Orozimbo e sua jardineira Chevrolet; as educadoras Dona Ilka Brandão, diretora do “José de Melo”, e Dona Marta Oliveira Guimarães, do “Augusto Gonçalves”; o Dr. Guaracy – diretor da Escola Normal; o Biscoitão; o Mozart Machado da Coletoria Estadual: os médicos Oliveiros,  Thomaz Andrade,  José Campos, Coutinho;  o Messias do Armazém Assis, e seu Armando Prado, dono da padaria. O Alfredo da Farmácia Nogueira; o Severino Lara, homem grandalhão, agradável e prestativo…dentre tantas outras figuras que povoavam nossas ruas e praças.

 

Dona Graciana foi trazida para a sede do município no ano de 1956, por indicação do prefeito municipal, Milton de Oliveira Penido, com a incumbência de implantar o Jardim de Infância “Ana Cintra”, sendo esta, uma das primeiras escolas infantis do interior das Minas Gerais. Ao mesmo tempo, assumiu a cadeira de Didática e Prática de Ensino na Escola Normal Oficial de Itaúna. O nome “Ana Cintra” foi escolhido em homenagem à grande educadora mineira, Anna Cintra de Carvalho (1868 -1944), avó de dona Consuelo Maria Martins de Oliveira Penido- esposa do Prefeito Dr. Milton Penido.

 

Nas terras de Sant’Ana, Dona Graciana trabalhou quase trinta anos ininterruptos. Lecionou para várias gerações e foi querida e cultuada por crianças e adultos. Entusiasta da profissão, dizia sempre que ensinar é uma arte e bons professores se formam no “assoalho da sala de aula”. Nunca deixou de lado a Educação Continuada (hoje tão em voga). Nas férias, fazia cursos de aprimoramento no Instituto de Educação em Belo Horizonte.

 

Para quem adorava tomar Vinho Reconstituinte “Silva Araújo” e Biotônico Fontoura, absorvendo os clamores do “Repórter Esso”, o nosso escriba Urtigão reuniu forças e humores em seu livro e desvela-nos um mundo quase mágico, perdido nas brumas do tempo e que nos emociona e transporta-nos para essa aventura – entre os Anos Dourados e a corrida espacial – nostálgica sem ser piegas e recheada de saudades de um tempo sem tempo, aonde a vida transcorria de modo mais elegante e calmo, como o suave burburinho das águas do São João de nossa Itaúna.

 

“Mater et magistra”. Mãe e mestra. Do altar da padroeira para a sala de aula… Mãe e Mestra Graciana; foi uma Ana cheia da graça, nas terras da Santa Professora.

 

*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA

  Historiador/ Escritor/ Membro fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/

Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e

“O que a vida quer da gente é coragem”/

Cidadão Honorário de Itaúna