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Rádio Santana FM

Itaúna, 28 de novembro de 2020

padre nilo

 ITAÚNA amanheceu mais pobre em seu cenário humano na manhã cinzenta do sábado, dia 12 de março do corrente ano. Partia para a eternidade o nosso tão querido Pe. Nilo.

Dele muito já foi dito e muitos outros escreveram e escreverão muitas lindas mensagens, como linda foi a sua passagem por esta terra.

Deixo aqui, nestes pobres rabiscos, a minha pequena contribuição sobre a Vida deste homem, com quem convivi desde a minha infância. Cursava eu a antiga 5ª série, no de 1979, há 37 anos – portanto- na Escola Estadual de Itaúna, quando os nossos caminhos se cruzaram a primeira vez.

Lembro-me da calça adidas, com as três listras, a camisa de malha branca, os tênis e um fusquinha que não me lembro bem a cor.

Todos os alunos postos em fila na linha vermelha da quadra e em silêncio. Seis horas da manhã. O relógio da Matriz de Sant’ana ecoava por toda a Itaúna a sua primeira badalada. E ele começava sua aula de Educação Física: “o anjo do Senhor anunciou a Maria…” e respondíamos em coro: “e ela concebeu do Espírito Santo” e juntos “Ave Maria…”

Sempre foi um amigo. Sempre. E o foi vida afora. Amigo com o sorriso largo e sincero no rosto, mas também o amigo que sabia dizer não e nos corrigir na caridade para sermos pessoas de bem.

Nilo Caetano Pinto nasceu no distrito de Antônio dos Santos, em Caeté, Minas Gerais, em 24 de março de 1930. Era o filho mais velho de Carlito Caetano Pinto e Antônia Luiza Dinis e teve mais seis irmãos. Órfão de pai aos 11 anos, começou a trabalhar para ajudar em casa, sem deixar de lado os estudos, que seguiu até graduar-se em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Deste tempo de estudos em Belo Horizonte , havia um bom amigo, o Coronel José Lázaro Guimarães e este era casado com dona Eneida Nogueira; irmã do nosso ilustre e saudoso Dr. Guaracy de Castro Nogueira. Foi assim. Uma através de uma indicação do coronel ao Dr. Guaracy que o então Prof. Nilo veio aportar em Itaúna no ano de 1958 ( …por aqui, boa gente aportou…como muito bem o cantamos em nosso belo hino municipal…).

Chegou em nossas barrancas já casado com Florescena Diniz Guimarães Pinto e tiveram teve oito filhos, dos quais conheceu 12 netos e um bisneto.

O nosso então Prof. Nilo lecionou na Escola Normal, a Escola Estadual de Itaúna, por 34 anos, como professor e vice-diretor. No Colégio Santa’Ana ficou durante 26 anos.

Nilo sempre foi um homem de Fé. Sempre engajado nos movimentos da Igreja. Ajudava com sua Família na Igreja da Piedade e na comunidade Sagrada Família do Bairro Cerqueira Lima, pois residia naquela região; tempos do paroquiato do Pe. Giovanne Van de Laar. Ele e os filhos foram ministros da Eucaristia, da Palavra, do batismo e do matrimônio

Em 1982, dona Florescena, sua esposa, veio a falecer. Foi, sem dúvida, um grande golpe no coração daquele homem. Porém, Nilo já era um homem que se confiava em Deus.

E aos 52 anos, ainda criando os filhos, resolveu dizer sim ao chamado desse Deus.

Aqui existiu a figura de um intercessor da Graça Divina. Era nosso primeiro bispo diocesano – Dom Cristiano Portela de Araújo Penna. O Dom Cristiano o indagou se pretendia casar-se novamente. Nilo respondeu-lhe que não havia essa intenção, dado a beleza e profundidade de seu matrimônio e a fidelidade que compartilharam ao longo de 28 anos.

Assim sendo, encaminhou-lhe Dom Cristiano para a Faculdade de Teologia, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC – em Belo Horizonte.

Após três anos e seis meses de dedicados estudos e preparação, foi ordenado padre por Dom José Belvino do Nascimento, aqui em Itaúna no ano de 1990, no Poliesportivo JK. Aliás, ele e o Pe. José Geraldo Flores, da Igreja da Piedade aqui, foram os primeiros sacerdotes a serem ordenados na diocese por Dom Belvino- hoje bispo emérito.

A primeira paróquia aonde trabalhou o Pe. Nilo foi a do Sagrado Coração de Jesus, em Santanense, onde ficou por dois anos; em seguida, a pedido de Dom José Belvino, foi transferido para o bairro Padre Eustáquio, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, por cinco anos. Logo depois, foi chamado pelo Pe. Amarildo para ajudá-lo na Paróquia Sant’Ana por outros cinco anos; deixou-a apenas por um ano e 10 meses para substituir o falecido Pe Heli Lourenço, no bairro de Lourdes, na paróquia Nossa Senhora Aparecida e retornando em definitivo para a Paróquia Sant’Ana.

Um outro amigo itaunense , o Pe. Phillipe Fernandes, disse que o Pe. Nilo foi o padre que ninguém viu envelhecer… E muitos o chamavam de “o homem dos 7 sacramentos”…

Ora, para nós católicos, os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus. São veículos dessa graça. E a maioria dos homens parte deste mundo com 6 sacramentos; pois ou se tem o sacramento do matrimônio ou o da Ordem ( que confere o sacerdócio católico).

Pois bem. O nosso mui especial Pe. Nilo partiu daqui na plenitude da graça! Com todos os 7 sacramentos! O último foi-lhe ministrado no leito do hospital, a unção dos enfermos, que o preparou para ir de encontro a Deus.

Fica para nós- itaunenses – agora o grande exemplo.

Em meio a tantas crises; eis o exemplo de Padre Nilo para nós. Exemplo de pai, exemplo de padre, exemplo de fidelidade, à Deus, à sua Palavra sobretudo. Enquanto esposo, honrou plenamente seu casamento sendo-lhe fiel até a morte de sua esposa. Enquanto padre, honrou plenamente o seu sacerdócio, sendo-lhe eternamente fiel. Enquanto homem, honrou plenamente a espécie humana, sendo
humano com os humanos! Homem de profunda espiritualidade e oração, sabia ouvir a Deus no silêncio meditativo de suas orações. Homem de profunda humanidade…sabia e se dispunha sempre em ouvir o outro.

Pe. Nilo o homem do sim! Sim a Deus! Sim ao homem! Ouvia Deus e ouvia o seu semelhante. Sempre. Eis uma de suas grandes dificuldades…dizia sim para todos e para tudo, a ponto de embolar seus compromissos e abarrotar sua agenda de atividades e atendimentos de toda espécie. Desde benzer uma casa a salvar um casamento em crise. Desde dar um conselho a impedir uma grande bobagem.

Pe. Nilo em sua grande simplicidade evangélica. Era de se admirar. Nas missas, logo trocava de lugar com os coroinhas para que eles ficassem perto uns dos outros para seguirem a Palavra no lecionário. Preferia distribuir a comunhão pelos lados da igreja e quase nunca no centro. Nunca gostou das pompas litúrgicas. Vestia-se com os paramentos mais simples. Quase nunca usou uma casula ( grande vestimenta que se assemelha a uma capa fechada)…Foi velado numa igreja de bairro ( nas Graças) e não na majestosa Matriz de Sant’ana….e fora um pedido seu- salvo engano.

Tratou de partir em uma noite de sexta, para que tivéssemos parte do sábado para cuidar dos ritos de sua passagem – quando a maioria do Clero está mais livre- e com o domingo para descansar e assim não atrapalhar ninguém de nada, como era bem de seu feitio…

Como esquecer os bolsos cheios de balas para as crianças que ainda não tinham feito a primeira comunhão… adoçadas para sentir a doçura de Deus!

Ah Pe. Nilo! Tínhamos um Cura d’Ars e não sabíamos….

Descanse em Paz meu Pe. Nilo. Recebe agora a coroa da Justiça, a qual o Senhor, Justo Juiz, lhe deu naquele dia!

Misture sua luz a das estrelas…cintile quando o dia clarear.

Réquiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.

*paroquiano de Sant’ana