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Rádio Santana FM

Itaúna, 12 de dezembro de 2019

 

Apesar dos modos como a paternidade e a maternidade ainda serem distribuídos de maneiras diferentes, uma vez que ainda são mantidos estereótipos do que é papel de mulher e do que é papel de homem na sociedade, ‘ser um bom pai’ costuma estar associado à realização de uma espécie de código social sobre ordem, regulações e limites. É claro que ‘ser mãe’ não exclui esses elementos, sobretudo num país como o nosso que, em 10 anos, chegou ao número de 1,1 milhão de mulheres que educam seus filhos sem o seu cônjuge, como afirmou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), numa pesquisa realizada em 2015. A maternidade, para essas mulheres, é um mix de todas essas prerrogativas que costumam ser denominadas sobre a atuação dos genitores. Para elas, recorrer à figura do ‘homem da casa’ talvez não seja uma alternativa, o que não significa a desordem num processo educacional, necessariamente.

O que significa, então, ‘ser pai’? Essa pesquisa do IBGE aponta que estes filhos e filhas estão fadados a um destino inferior ao daqueles que compõem a família nuclear tradicional? Bem, um dos apontamentos que a psicologia pode fazer sobre este assunto é o de que masculinidade e feminilidade não são elementos que sozinhos determinam o cumprimento de uma função. O que se quer levantar, aqui, como questionamento é se esse necessário de estabelecimento da lei enquanto aquela que organiza (interna e externamente) será mesmo garantido por causa de traços que expressam ‘o homem’ ou se, na verdade, pode-se até mesmo ter como componente familiar aquele do sexo masculino, mas, mesmo assim, possibilitar o afrouxamento do limite e da organização sadia. Em outras palavras: ‘ter um homem em casa’ garante a boa educação dos filhos? Basta-nos olhar para o nosso círculo social e iremos concluir, talvez sem delongas, que a resposta é ‘não’. E é por isso que ‘ser pai’ pode ser um ato de coragem, nos dias de hoje. Vejamos os porquês.

A masculinidade tóxica, esse tipo de comportamento perverso que procura manter tudo aquilo que parecer ser sensível e fraco o mais distante possível, tem feito homens (e muitas mulheres!) sofrerem. Clinicamente, não são poucos os relatos de homens que sofrem, às vezes de modo escondido, por não se encaixarem no padrão do ‘machão’, mesmo que isso NADA tenha a ver com homoafetividade ou heterossexualidade. Nesse tipo tóxico de ver a vida, comportamentos como chorar, cuidar dos filhos, limpar a casa ou ajudar nos deveres escolares são banidos de possibilidade simplesmente porque são associados à suposta fraqueza ou inferioridade de uma mulher. E esse tipo de pensamento, reforçado cotidianamente até por lideranças políticas e religiosas, fomenta um bloqueio que determina, por exemplo, que participar de reuniões escolares ou conversar com um filho sobre os valores e aprendizados possíveis do fracasso, são ‘coisas de mulheres’ ou de ‘mães.  Nessa aposta, homens podem correr o risco de quererem ser ‘apenas homens’, não pais, já que a paternidade, como se vê aqui, ainda insiste em estar atrelada, nesse modelo machista, ao que representa um órgão genital.

Portanto, pais, sejam corajosos! Calculem a perda que se estabelece quando, por causa de um mecanismo social puramente enfiado goela a baixo, vocês podem estar perdendo horas e horas de relações saudáveis e profundas com seus filhos e filhas. Vejam o quanto, olhando para vocês mesmos, podem ser capazes de constatar a perda significativa de afeto e laço com os próprios pais de vocês, por esses mesmos motivos que determinaram o quanto podiam ou não abrir-se com eles. Analisem também, caso tenham coragem, o quanto a mãe dos seus filhos e filhas talvez esteja sobrecarregada de tarefas e deveres, única e exclusivamente porque vocês aprenderam que muitas dessas são ‘funções da mulher’.

‘Ser pai’ pode ser um ato corajoso, especialmente numa época em que coragem tem sido associada à força, à brutalidade e à violência. Em tempos assim, coragem é conseguir conversar com os filhos e filhas, principalmente mostrando-se como é, muito antes de aparentar, conforme alguns padrões sociais, quem ‘deveria ser’.

 

Nilmar Silva é Psicólogo (CRP 04/47630), Filósofo, Professor e Especialista em Educação. Faz atendimentos clínicos em seu consultório em Itaúna e Divinópolis, e escreve artigos para a sua coluna na Rádio Santana FM.

 

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